sábado, 15 de julho de 2017

Processamento Léxico e fonológico – modelo cognitivo de “dupla rota”

Ana Lúcia Hennemann¹
     
    Estudos das neurociências trouxeram a compreensão de muitas interfaces entre cérebro e aprendizagem, sendo que na atualidade já é possível verificar quais processos cognitivos são acionados quando um indivíduo executa determinadas tarefas. Deste modo, pesquisas relacionadas a área da leitura tem proporcionado a compreensão de vários processos específicos que precisam trabalhar em harmonia de forma a tornar o indivíduo um leitor mais eficiente, ou então, entender e poder intervir quando alguém apresenta dificuldades relacionadas à leitura.
     Corso e Salles (2009) em estudo da “Relação entre leitura de palavras isoladas e compreensão de leitura textual em crianças” explicam que para a leitura de palavras impressas acionamos o nosso léxico mental, este engloba dois processos diferentes: rota fonológica e rota léxica, por isso os mesmos são conhecidos como modelo cognitivo de “dupla rota”, porém, um leitor competente precisa dominar os dois processos para que o reconhecimento da palavra possa ser mais eficaz.

     A rota fonológica é responsável pela decodificação do grafema/fonema, por exemplo para leitura da palavra: “chivanerfluzba”, que na verdade se trata de uma pseudopalavra, o leitor, embora desconheça a palavra e seu significado, conseguirá ler fazendo uso dos conhecimentos fonológicos.
Por isso, a leitura de palavras tanto conhecidas quanto desconhecidas, podem ser lidas pela rota fonológica, porém, na leitura de palavras irregulares, o leitor apresenta bastante dificuldade pois a correspondência letra-som não obedece uma regra geral, ou seja, na leitura da palavra táxi um leitor iniciante pode ler “tachi”, do mesmo modo ler “echercício” ao invés de “exercício”. Crianças que recém estão se alfabetizando, utilizam e muito a rota fonológica, cujo esforço de decodificação faz com que a leitura seja mais lenta e segmentada e muitas vezes quando perguntamos sobre o significado da leitura, ela poderá responder que não sabe.
     Diferentemente, na rota lexical as palavras são identificadas conforme o reconhecimento de sua ortografia e também associados com outras palavras que tenham ortografias semelhantes, bem como o acesso imediato ao seu significado semântico. Por exemplo: vamos dizer que alguém lhe dita uma palavra e você fica na dúvida se a palavra é com j ou g, e imediatamente num ato automático, escreve a palavra como modo a sanar tal dúvida…isso acontece porque já temos armazenado um “dicionário léxico” que nos permite lembrar da forma ortográfica da palavra no momento em que a visualizamos. 
     O reconhecimento de palavras pela leitura é atingido precocemente por escolares sem dificuldades. (MOUSINHO; NAVAS, 2016). Entretanto, devemos lembrar que crianças, principalmente no processo de alfabetização, recém estão estruturando este dicionário, por isso é importante o maior contato possível com objetos de leitura (livros, revistas, jogos, etc).
     Do mesmo modo, hábitos de leitura diários, podem propiciar maior fluência e velocidade de processamento (capacidade de buscar as informações na memória de longo prazo), o que auxilia a criança a ter mais espaço na sua memória operacional de modo a conseguir prestar atenção a outros aspectos que envolvem a leitura, tais como: interpretação, comparação, identificação das ideias centrais.
     Vamos fazer uma experiência? Leia o parágrafo abaixo, o qual poderá lhe dar o entendimento de como se sente um indivíduo que necessita fazer constantemente somente uso da rota fonológica para a leitura de textos...
     O    u   s   o     d   a     r   o   t   a     f   o   n   o   l   ó   g   i   c   a    p   e   r   m   i   t   e     c   h    e   g   a   r     a   o     s   i   g   n   i   f  i   c   a   d   o    d   a   s    p   a   l   a   v   r   a   s     a   t    r    a   v   é   s       d   a      t    r   a   n   s   f   o   r   m  a   ç   ã   o      d   e    c   a   d   a    g   r   a   f   e   m   a     e   m     s   e   u     c   o   r   r   e   s   p    o    n   d    e    n   t     e       s   o   m   e    f   a   z   e   r     u   s   o     d   o     m    e   s   m   o     p   a   r   a    t   e   n   t   a   r     c   o   m   p   r   e   e   n   d   e   r      o   s   i   g   n   i   f   i   c   a   d   o    d   a   s    p   a   l   a   v   r   a   s.
     Talvez, este simples parágrafo tenha sido fácil para você, justamente porque já tem proficiência tanto no uso da rota léxica quanto da fonológica, porém, pode-se perceber que perdemos velocidade de processamento e fluência da leitura, imagine alguém que tenha que ler um livro fazendo uso apenas da rota fonológica! Então, pensando em todas estas situações, vamos responder as perguntas propostas no início deste artigo: - O que faz com que tenhamos maior fluência e velocidade de processamento na leitura? Será que é somente treino?
     Maior fluência e velocidade de processamento na leitura ocorre sim, através do aumento da nossa bagagem lexical. Treinos de leitura ajudam e muito, entretanto, se faz necessário entender que a criança pode apresentar déficit em algum dos componentes que fazem parte destes processos de dupla rota, fazendo com que não consigam desenvolver a fluência e a velocidade de processamento. Vejamos por exemplo: uma criança que esteja no 4º ano do ensino fundamental, onde a maioria das disciplinas exigem leituras constantes e a estratégia de leitura deste indivíduo ocorre somente pela rota fonológica. Essa situação causa um atraso na leitura e na compreensão leitora, pois acarreta no comprometimento da memória de trabalho e na busca de imagens mentais que ajudam a compreender a leitura.
    Nesse sentido devemos entender que apesar da criança fazer uso da rota fonológica, ela pode justamente ter processos desta rota que se mostram deficitários, tais como consciência fonológica, discriminação auditiva, memória fonológica, então de nada adiantará apenas treinar a leitura, pois existem outros fatores que necessitam ser desenvolvidos. Pais e professores devem levar em consideração que crianças no terceiro ano do ensino fundamental já deveriam ter todas estas habilidades bem desenvolvidas, caso contrário, se faz necessário uma avaliação do desempenho desta criança, de modo a averiguar em que aspectos ela precisa ser estimulada.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CORSO, Helena. SALLES, Jerusa. Relação entre leitura de palavras isoladas e compreensão de leitura textual em crianças. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 44, n. 3, p. 28-35, jul./set. 2009
MOUSINHO, Renata. NAVAS, Ana Luíza. Mudanças apontadas no DSM-5 em relação aos transtornos específicos de aprendizagem em leitura e escrita. Revista debates em psiquiatria - Mai/Jun 2016.
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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.  Processamento Léxico e fonológico – modelo cognitivo de “dupla rota”. Novo Hamburgo, 15 de julho/ 2017. Disponível online em:   http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/07/processamento-lexico-e-fonologico.html

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