terça-feira, 8 de agosto de 2017

Congresso Brasileiro de Neuropsicopedagogia

     

    No mês de outubro Joinville - SC irá ser a sede de um grande evento, o Congresso Brasileiro de Neuropsicopedagogia. 
  Toda organização está sendo realizada pela SBNPP - Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia, que é uma sociedade sem fins lucrativos mas que visa divulgar tudo que diz respeito a Neuropsicopedagogia. Para este ano, o ápice desta divulgação se dará através do congresso cuja temática principal será "Interfaces entre as Neurociências, Psicologia Cognitiva e Pedagogia  para uma educação em evolução".
       O evento ocorrerá entre os dias 5 e 7 de outubro com palestras ministradas  dentro de 6 módulos norteadores:
1º “Neuropsicopedagogia e Suas Implicações Dentro da Escola”
2º “Neurodesenvolvimento e Aprendizagem”
3º “Neuropsicopedagogia e Prevenção”
4º “Neurociências, Metodologias Inovadoras de Ensino e Tecnologias”
5º  “Neurociências e suas interfaces da atuação Clínica e Institucional”
6º  “Neuropsicopedagogia e Terceiro Setor”

Venha conferir toda a programação através do site: http://sbnpp.com.br/congresso/programacao/ 

E lembre-se de se inscrever o quanto antes, pois as vagas estão concorridas!!!

sábado, 5 de agosto de 2017

Entendendo os processos cognitivos relacionados a atenção, memória operacional e funções executivas


Ana Lúcia Hennemann[1]
         Nosso sistema nervoso é repleto de estruturas que se utilizam de processos cognitivos que nos fazem desempenhar as tarefas do dia-a-dia, sendo que a obtenção de êxito nas mesmas se dá quando estes processos trabalham de forma equilibrada e integrada. Processos como atenção, memória operacional e funções executivas são primordiais para a realização de qualquer atividade, sendo que estudos com alunos que apresentam transtornos de aprendizagem evidenciam desempenho abaixo do esperado em tarefas que fazem a mensuração destes construtos.
        Nesse sentido, o entendimento do que exatamente são estes processos, como eles atuam no cérebro e quais as regiões responsáveis pelos mesmos, podem proporcionar ao educador a identificação precoce de situações disfuncionais em estudantes, auxiliando deste modo no processo de encaminhamento a outros profissionais quando se fizer necessário e também na escolha de atividades pedagógicas de intervenção.

Atenção

       Durante o percurso de uma hora ou um dia, muitas informações chegam ao nosso sistema nervoso através de receptores sensoriais periféricos que captam a energia do ambiente e vão passando-a de uma célula a outra, até chegar em áreas especificas do cérebro responsáveis pelo seu processamento, no entanto nem tudo é processado. Esta situação ocorre devido ao nosso cérebro ser constituído por mecanismos que necessitam filtrar as informações, focalizando somente aquilo que nos é importante. Este mecanismo de filtrar/selecionar as informações ocorre através do fenômeno da atenção, onde Guerra e Cosenza (2011) usam como metáfora a comparação com uma lanterna, ou seja, a luz da lanterna ilumina determinado foco dentro de um grande contexto, a iluminação da lanterna seria o mesmo que ocorre com o nosso foco atencional.  No entanto, os autores alertam que o foco atencional não ocorre apenas em situações extrínsecas, mas também nas intrínsecas, ou seja, em situações interiores do nosso organismo, por exemplo nossos pensamentos.
      A seleção das informações se dá através de cadeias neuronais onde as estações sinápticas intermediárias podem inibi-las, impedindo desse modo que as mesmas atinjam regiões que as torne conscientes. Nesse sentido, um aspecto importante a considerar é o nível de vigilância ou de alerta que o cérebro se encontra num determinado momento.
       O nível de vigilância é regulado pelo locus ceruleus[2](figura 1), localizado no mesencéfalo onde o principal neurotransmissor produzido nesta região é a noradrenalina. 

Figura 1 - Locus ceruleus
Fonte: adaptação de imagem de KANDEL, 2016

        Um nível de vigilância adequado permite que nosso cérebro possa manipular a atenção, fazendo com que o foco atencional consciente ocorra em diferentes modalidades sensoriais. (COSENZA; GUERRA, 2011). Entretanto, situações de extremo alerta atencional podem ocasionar prejuízos aos indivíduos, alterando a atenção e o processamento cognitivo, por exemplo: pessoas que sofrem de ansiedade ou esquizofrenia podem apresentar desequilíbrios atencionais fazendo com que as informações que lhe chegam sejam distorcidas.
      Quando falamos de atenção se faz necessário explicar que há circuitos neuronais que a governam, circuitos tais como: da regulação da vigilância, orientador e o executivo.
       O circuito da regulação da vigilância pode ser regulado de duas formas: “de baixo para cima” ou de “cima para baixo”.
    O circuito de regulação “de baixo para cima” chamado de atenção reflexa, é norteado pelos estímulos periféricos e suas características, algum tipo de novidade ou contraste. Por exemplo: algum som que ocorra repentinamente no ambiente: uma ambulância que passa, a porta que bate, a sineta que toca no contexto escolar. As situações internas do organismo como sede, fome, etc, também fazem parte da atenção reflexa.  Na atenção voluntária, a que ocorre “de cima para baixo”, é justamente quando temos uma escolha determinada por um algum contexto específico: procura de um objeto em algum local ou tentar alcançar algum objetivo.
    O circuito orientador, localizado no lobo parietal é aquele que nos permite desligar o foco atencional de um determinado alvo e o deslocar para outro ponto, ajustando a atenção para que possamos perceber com maior clareza o estímulo enviado. Nesse circuito o foco da atenção pode ser dirigido a outros sistemas sensoriais.
    No circuito executivo, ocorre o prolongamento da atenção ao mesmo tempo que são inibidos os estímulos distratores. Esse circuito (figura 2) localiza-se numa área do córtex frontal, numa porção mais anterior de uma região conhecida como giro do cíngulo que fica situada na parte interna do hemisfério cerebral adjacente ao outro hemisfério.
Figura 2- Circuito executivo

                                                         Fonte: adaptação de imagem de Kandel, 2016
      
        Uma das funções dessa atenção executiva relaciona-se aos mecanismos de autorregulação, que consiste na capacidade de modulação do nosso comportamento de acordo com as demandas cognitivas, emocionais e sociais de uma determinada situação (COSENZA e GUERRA, 2011). Sendo que no giro do cíngulo há duas áreas diferentes, uma que regula a atenção aos processos emocionais e outra que é voltada aos processos cognitivos.

Memória de trabalho

       Quando falamos de memória de trabalho, podemos utilizar a metáfora de uma mesa contendo objetos os quais iremos nos utilizar durante um determinado período para desempenhar uma tarefa. Deste modo, podemos entender que a memória de trabalho é também conhecida como memória operacional, sendo que a função da mesma permite a manutenção e a manipulação de informação de forma temporária enquanto são realizadas operações mentais. Essa memória é responsável pelo armazenamento e pela manipulação de novos conhecimentos, bem como permite que se faça correlações entre novas e antigas informações.
        A memória operacional não tem uma localização específica no cérebro, mas sim vários circuitos ou sistemas responsáveis por ela, sendo que o córtex pré-frontal coordena e integra ações desenvolvidas em várias áreas corticais e subcorticais como forma de cuidar de nossas atividades mentais.
       No entanto, se faz necessário lembrar que para que a informação chegue na memória de trabalho ela precisa ser relevante a ponto de se tornar consciente, ultrapassando deste modo o filtro da atenção. Uma memória inicial, ocorre através memória sensorial ou imediata, que dura alguns segundos e apenas ativa os sistemas sensoriais relacionados a ela. Embora com características um pouco diferenciadas, quanto ao tempo de armazenamento, esta memória lembra um modelo postulado por Baddeley (2000), conhecido como “buffer episódico”, o qual podemos verificar nas descrições de Abreu [et al] (2016, p.301),
Em uma revisão e nova proposta do modelo em 2000, Baddeley inseriu um novo componente, o buffer, ou retentor episódico, um sistema supostamente capaz de reter informações por curto tempo de forma multidimensional e realizar conexões entre os subsistemas da MO e as conexões da MO com inputs da memória de longa duração e da percepção (Baddeley, 2011; Canário & Nunes, 2012).

      No entanto, se a informação tiver relevância ela pode ser mantida na consciência através do sistema de repetição que pode ser feito através de recursos verbais ou visuais (imagens). Esses subsistemas são na verdade processos cognitivos, localizados no córtex cerebral, os quais Baddeley, 2011 os caracteriza como alça fonológica e esboço visuoespacial.
[...] na alça fonológica ocorre a codificação fonológica (verbal), enquanto o esboço visuoespacial é responsável por armazenamento e manipulação da informação correspondente a esse domínio, possibilitando o desenho mental de lugares ou situações. (ABREU [et al], 2016, p.301)

       Cosenza e Guerra (2011) alertam que o sistema de repetição tem capacidade limitada referente aos números de itens que consegue manter e processar, equivalente ao intervalo de 2 segundos. Contudo, tanto a memória sensorial quanto o sistema de repetição se mostram componentes essenciais da memória operacional, pois os sistemas neurais responsáveis por esta memória lidam com vários processos de informação, tais como: sons, imagens, pensamentos, no sentido de mantê-los disponíveis para que possamos desempenhar atividades voltadas cotidianas voltadas a resolução e compreensão de tarefas, ou seja, raciocinar sobre as mesmas.
      Pode-se tomar como exemplo a seguinte situação: a criança recebeu na escola um “tema de memória”, ou seja, um tema para casa o qual não necessitava fazer o registro no caderno ou agenda. Vamos simular que a tarefa seja: - trazer no dia seguinte uma gravura de um animal doméstico. Como estratégia para lembrar a atividade a criança poderá: - repetir a ordem dada até encontrar um familiar e informar o que necessita fazer; - se ela tem animal poderá visualizar a imagem do mesmo; -poderá associar o tema a uma situação em que brincou com um animal desta classificação. Enfim, ela terá que conservar esta informação, por determinado tempo, através de ativação de registros, pois quando associamos as tarefas a sinais e pistas maior a chance de manter por horas ou até mesmo dias a informação na memória operacional.

Funções executivas

        No desempenho de qualquer tarefa se faz necessário um conjunto de habilidades e capacidades que nos permitem realizar ações para a conclusão da mesma, chamamos isso de funções executivas (FEs). Por exemplo se necessitamos escrever um bilhete a alguém, se faz necessário desde a organização de objetos para a escrita até a seleção do conteúdo a ser inserido. Outro exemplo: o indivíduo precisa ir ao mercado comprar os alimentos para a semana, então será necessário: identificar quais produtos devem ser comprados, a forma de pagamento dos mesmos, o como irá transportá-los até sua residência, onde irá armazenar tais alimentos. Tudo isso requer “identificação de metas, planejamento de comportamento e a sua execução e monitoramento do próprio desempenho até que o objetivo seja consumado”. (COSENZA; GUERRA, 2016, p. 87)
      As funções executivas (FEs) nos dão condições para elaborar nossos pensamentos de modo a adaptá-los aos estímulos, antecipar ações futuras e mudar planos caso ocorram imprevistos, por isso elas possibilitam nossa interação com o mundo frente às mais diversas situações que encontramos. Faz com que desempenhamos uma tarefa global (tanto de curto quanto de longo prazo) ao mesmo tempo que executamos várias outras subtarefas que necessitam ser distribuídas no tempo de forma organizada e mantidas na memória operacional até que a meta final se concretize. (COSENZA; GUERRA, 2016).
       A região pré-frontal possui três circuitos neuronais responsáveis pela coordenação destas funções executivas: orbitofrontal, dorsolateral e medial.(figura 3)
Na orbitofrontal, localizada na porção inferior do cérebro, logo acima da órbita, se mostra responsável pela avaliação dos riscos e inibição de respostas inapropriadas. A dorsolateral situa-se na parte externa do cérebro e através dela ocorre o planejamento do comportamento, a flexibilização das ações e o funcionamento da memória de trabalho. Na superfície medial do cérebro juntamente com a porção mais anterior do giro do cíngulo está o circuito medial, responsável pelo automonitoramento, a correção dos erros e o fenômeno da atenção. 


                                   Figura 3- Regiões responsáveis pelas funções executivas
                                              Fonte: criação da autora adaptando de imagens de KANDEL, 2016.

       Todos indivíduos necessitam ter pleno funcionamento de suas funções executivas para êxito nas tarefas, no entanto devemos lembrar que estas funções se desenvolvem gradualmente ao longo da infância e da adolescência, pois o córtex pré-frontal responsável pela coordenação das funções executivas tem “maturação lenta e continua se modificando significativamente até a adolescência por meio de processo como ramificação de dendritos e a formação e a eliminação de sinapses”. (COSENZA; GUERRA, 2011, p. 92)
      Todo ser humano vai abarcando ao longo de sua vida experiências diferenciadas e desta forma vai se constituindo como indivíduo único, sendo que o ambiente social tem função essencial no desempenho das funções executivas, porém devemos lembrar que justamente pela trajetória de vida de cada um, o desenvolvimento destas funções também se apresentará de modo distinto para cada ser humano.

Considerações finais:
      
       Todos dependemos do bom funcionamento de nossos processos cognitivos para a realização das tarefas, sendo que no ambiente escolar, devido a grande demanda de atividades que exigem atenção, planejamento, velocidade de processamento, fluência verbal, memória, entre outros, fazem com muitos destes processos se mostram mais evidentes. Ter pleno funcionamento dos processos que envolvem atenção, memória operacional e funções executivas ajuda os alunos a focar, conseguir manter informações na mente enquanto realizam exercícios escolares, bem como conseguir priorizar e inibir comportamentos, situação que auxilia a resistir a distrações ou estímulos irrelevantes.
      Autores como Cosenza e Guerra ao mesmo tempo que nos orientam sobre todos estes construtos também nos alertam do que pode ser realizado para manter o equilíbrio destes processos. Atividades como: - estudar em ambientes sem distratores; - ter rotina para estudar; - ter atividades de higiene mental para ajudar a manter a memória de trabalho menos sobrecarregada de modo a processar as informações mais importantes. Do mesmo modo, tanto pais quanto educadores, mediante o conhecimento destes processos e com o entendimento de que a criança se encontra com o cérebro em processo de maturação podem ensinar estratégias que impulsionem o desenvolvimento das funções executivas, tais como: ensino de planejamento das atividades onde a criança seja capaz de estabelecer metas e executá-las desde o início até o fim das mesmas.
       Levando em consideração que o ambiente também vai moldando o quanto vamos desenvolvendo ou não nossas habilidades cognitivas, podemos entender o quanto é importante ter pessoas mais conscientes para orientar as crianças, pois elas serão os adultos de amanhã e a obtenção do pleno desenvolvimento destes processos cognitivos pode resultar em uma vida mais útil e com muito mais êxito.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
 CORSO, Luciana Vellinho. Dificuldades na Leitura e na Matemática: um estudo dos processos cognitivos em alunos da 3ª a 6ª série do Ensino Fundamental. Tese de Doutorado. Porto Alegre: UFRGS, 2008.
COSENZA, R.M. GUERRA, L. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.
 MALLOY-DINIZ, L., MATTOS, Paulo, ABREU, Neander, FUENTES, Daniel. Neuropsicologia: Aplicações Clínicas. Porto Alegre: Artmed, 2016.



[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. Professora de Pós-Graduação pelo CENSUPEG. Membro do Conselho Técnico da SBNPp (2016-2018) - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.  Entendendo os processos cognitivos relacionados a atenção, memória operacional e funções executivas
Novo Hamburgo, 05 de agosto de 2017. Disponível online em:   https://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/08/entendendo-os-processos-cognitivos.html


[2] Locus ceruleus – é um grupo de neurônios que possuem um pigmento de coloração azulada.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Ler e escrever requerem dedicação, exercício e tomada de consciência

Ana Lúcia Hennemann[1]


Em uma turma de primeiro ano, lá por volta de 2004, a temática era: “Histórias Infantis” onde “Chapeuzinho Vermelho” foi o assunto da semana. Na história escolhida a personagem optou por levar um BOLO à sua avó, então, neste dia a criançada teve que ir à cozinha e fazer todos os preparativos para que este bolo realmente se tornasse real. Bolo cozido, decorado e degustado. Que delícia! Hora do registro, hora da ênfase a palavra “BOLO”. O dia passou e a ênfase da história saiu do BOLO e foi para o LOBO. Novamente um dia repleto de atividades, dramatizações, fantoches, pesquisas na web sobre o personagem do dia... Mas algo diferente aconteceu...”G” (letra inicial do nome da criança) necessitou fazer um exame de sangue e só conseguiu chegar ao colégio próximo ao recreio. O menino entrou sorridente e dirigiu-se a sua mesa, começou a dispor seu material sobre ela e pode-se perceber exatamente o momento em que franziu a testa. Em fração de segundos levantou-se e dirigiu-se a professora dizendo: - Professora aconteceu uma coisa muito estranha!
- Sério? O que ouve? Respondeu ela...
- Ontem tinha um “bolo” na sala e registramos a palavra bolo, hoje tem um cão e as letras dele estão trocadas?(sic)
- Hummm, entendi! Vamos ver se algum colega consegue lhe ajudar a desvendar este mistério...- falando isso a professora solicitou às crianças que dessem um feedback dos acontecimentos da aula...
“G” voltou ao seu lugar, “mas não voltou para a aula”, rs, ele ficou imerso tentando desvendar um mistério...A professora percebia claramente aquela boquinha se movendo e repetindo “bolo”, “lobo”, “bolo”, “lobo”, sendo que as próximas atividades ele também não conseguiu realizá-las, pois tomado de uma imensa busca do saber, registrava nas últimas folhas de seu caderno as palavras “bolo”,” lobo”,”bola” seguidas de outras variáveis: “sapato”, “pato”, “sapa”, e muitas outras...
A aula do dia chegou ao final e a criança foi embora sem nenhum registro dos acontecimentos da mesma, mas com todos os registros que lhe ajudaram a elucidar o mistério de um bom leitor, para esta criança foi o dia da “tomada de consciência”!

     Ler e escrever para aqueles que possuem apropriação da leitura e escrita parece algo muito simples, contudo são habilidades que requerem dedicação e exercício constantes. A aquisição da leitura possibilita decifrar pequenos bilhetes, bulas de remédios, instruções de manuais, textos diversificados. Já a escrita nos permite o registro daquilo que queremos comunicar a alguém, seja um simples “oi” em um bilhete ou alguma rede social e até algo mais complexo como a escrita de um artigo acadêmico ou um livro. 
    Entretanto, o que para alguns já está automatizado para outros há um longo caminho a ser percorrido, trajetória nem sempre fácil, pois, para a aquisição de tais habilidades não possuímos um aparato biológico geneticamente programado, o que faz com que nosso cérebro se utilize de estruturas e circuitos que ao longo da evolução se desenvolveram para desempenhar outras funções (COSENZA; GUERRA, 2011).E além de todo este processo, ainda se faz necessário que a criança torne consciente a automatização destes processos. Através deste entendimento podemos inferir de que essas habilidades necessitam ser ensinadas, requerem dedicação, exercícios para que em algum momento se chegue a tomada de consciência de como se compõe o código alfabético, ou seja, se faz necessário investimentos constantes, pois cada cérebro é único e depende de estruturas cognitivas já consolidadas para que chegue a alcançar fluência na leitura e na escrita.
     Quando estamos diante de uma palavra, ela num primeiro momento é captada pelos nossos estímulos visuais e levada pelas vias ópticas até o córtex cerebral, do mesmo modo que ocorre com qualquer outro estímulo visual. Em se tratando de uma palavra já conhecida do repertório do indivíduo algumas vias cognitivas são acionadas mais rapidamente do que outras.
     Pesquisas realizadas com indivíduos leitores mostram que uma pequena região do hemisfério esquerdo situada no córtex visual é ativada quando os mesmos se deparam com palavras escritas, sendo que essa região se interessa pela ortografia das palavras, independente se a escrita for maiúscula ou minúscula, cursiva ou script que visualmente seriam diferentes, mas para esta região o input visual ocorre da mesma maneira. Esta região é conhecida como VWFA (área da forma visual das palavras), região que serve de conexão entre a visão das palavras e o circuito da linguagem, sendo que esta transfere informação visual para o circuito da linguagem o qual também recebe inputs auditivos.  Esta região, VWFA, decodifica as palavras escritas e tem uma função próxima ao reconhecimento visual de objetos e rostos. Conforme Dehaehe e Delgado (2012, p.12), “nessa região, durante a aprendizagem, a resposta aos rostos diminui ligeiramente à medida que a competência de leitura aumenta e a ativação aos rostos desloca-se parcialmente ao hemisfério direito”, ou seja, há uma reorganização do córtex visual.
     O diferencial é que em analfabetos ou crianças que estão aprendendo a ler esta região não é ativada, pois o leitor necessita ter um automatismo da correspondência grafema-fonema para que o cérebro ative este circuito. Leitores fluentes, ao se depararem com palavras conhecidas, ativam esta área em menos de 150 milissegundos o que lhes proporciona a rapidez na leitura. Entretanto, para que chegue a esta habilidade, a criança necessita ler CORRETAMENTE UMA PALAVRA VÁRIAS VEZES. E apara aqueles que trabalham com alfabetização, ler várias vezes uma palavra, não diz respeito a uma leitura mecânica, monótona, diz respeito a toda interação que a leitura exige, seja através de jogo, de brincadeira de soletração, de leituras diversas, enfim, de variáveis de leitura de modo a possibilitar a tomada de consciência de toda a estrutura relacionada ao entorno desta palavra. Ao interagir de forma diversificada com uma palavra a criança cria um sistema neural que reflete na ortografia, na pronúncia e no significado da mesma.
     Nesse sentido, transcrevo um trecho da última nota técnica emitida pela Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia, onde há indicativos de como aliar os conhecimentos da neurociência com a teoria da epistemologia genética:
À luz da neurociência, a seleção dos estímulos adequados para produzir a aprendizagem, considerando a qualidade deles, poderá determinar a efetividade da aprendizagem do sujeito. A percepção capturada pelo sistema nervoso periférico, levado através de corrente elétrica ao cérebro localizado no sistema nervoso central, desencadeará um processo de reelaboração dos conhecimentos, que até então foram compostos pelo sujeito aprendente.
A Teoria da Epistemologia genética diz que, nesse momento, ocorre um processo de apropriação, que por sua vez, possibilitará a desequilibração ao que já havia sido elaborado anteriormente pelo sujeito. Ao ocorrer a assimilação dos conhecimentos novos, ou seja, quando o cérebro através de sua atividade reorganiza o conhecimento adquirido por este novo estímulo, tem então, a acomodação, ou seja, uma nova construção cognitiva elaborada.(SBNPP, 2017, p.3-4)

    Leitores iniciantes que ainda não obtiveram esta nova construção cognitiva elaborada necessitam fazer mais  uso de outro sistema cerebral, localizado na região parietotemporal, o qual faz com que o indivíduo analise a palavra subdividindo-a e tentando relacionar a grafia da letra ao seu respectivo som. Este processo torna a leitura um pouco mais lenta.
     O que se faz necessário entender é que leitores fluentes se utilizam de ambos processos, pois eles são acionados concomitantemente, entretanto a bagagem de palavras construídas na área visual da forma das palavras (VWFA) faz com que este processo seja ativado com maior velocidade de processamento que automaticamente repercute na velocidade de processamento da leitura. Inicialmente as palavras são percebidas como qualquer outra imagem pelo nosso cérebro, ou seja, na área visual. Após esta entrada ocorre a seguinte situação:
- Se estamos diante de uma palavra conhecida a área visual da forma das palavras é ativada com maior veemência em detrimento de outras áreas
- Se estamos diante de uma palavra nova, a qual nunca havíamos feito a leitura da mesma, a área fonológica é ativada é ativada com maior veemência em detrimento de outras áreas. Porém aqui, ainda há outros dois tipos de decodificação fonológica:
1º - O som da palavra ligado à sua articulação: alguns leitores para fins de análise das palavras utilizam-se da área de Broca (área responsável pela articulação das palavras), onde eles podem subvocalizam (pronunciam em tom baixo) as palavras enquanto leem, ou pronunciá-las em tom mais alto, ou mesmo lê-las silenciosamente. Shaywitz (2006) informa que o processo de subvocalização faz com que o leitor crie uma consciência da estrutura sonora de uma palavra, uma vez que a forme fisicamente em seus lábios, línguas e cordas vocais.
O som da palavra é “ouvido através dos olhos”- aqui ocorre um processo similar ao da percepção auditiva, mas a entrada é pela percepção visual, ocorrendo uma fusão entre os sentidos da visão e da audição.
Após estas etapas, ambas as vias convergem a palavra para área de Wernicke para que seja feita a decodificação semântica (significado) da mesma.
     Um fator importante do entendimento de como nosso cérebro processa a leitura é justamente a questão da prioridade de método de alfabetização que as escolas adotam. Como vimos, o leitor proficiente necessita ter entendimento de tudo que compõe a estrutura de uma palavra, sendo assim, tanto métodos fônicos são importantes quanto métodos globais. As vias cognitivas que englobam as maiores regiões responsáveis pela leitura encontram-se nas regiões posteriores do cérebro, regiões que recebem os estímulos visuais, auditivos, somestésicos,  situação esta que nos faz repensar quanto a metodologia de ensino voltada à alfabetização. Os acúmulos de folhas fotocopiadas que são utilizadas como estratégias de aprendizagem nos anos iniciais contemplam as necessidades de atenção e motivação para que as vias sensoriais possam captar o objeto de aprendizado?
     Outro aspecto relacionado a aquisição da leitura é que ela se mostra um aspecto importante para a escrita, mas conforme Lima (2010) “somente a leitura não leva à escrita e uma das contribuições mais importantes da neurociência é a explicitação de que escrever se aprende escrevendo”.
     Ensinar uma criança a ler, representa possibilidades de a mesma fazer interpretações do mundo, porém, ensinar uma criança a escrever permite que a mesma possa ressignificar e deixar suas marcas registradas para o mundo e transformadas em memórias coletivas.

Referências Bibliográficas:
LIMA, Elvira Souza. Neurociência e Escrita. São Paulo: Inter Alia Comunicação e Cultura, 2010.
SBNPP. Nota Técnica 02/2017. Joinville: SBNPP, 2017. Disponível online em: www. Sbnpp.com.br
SHAYWITZ, Sally. Entendo a dislexia: um novo e completo programa para todos os níveis de problemas de leitura. Porto Alegre: Artmed, 2006.
STANISLAS, Dehaene. PEGADO, Felipe. O impacto da aprendizagem da leitura sobre o cérebro. Revista Pátio. Ano XVI nº 61 fev/abr. p 11-13. Porto Alegre: Artmed, 2012.
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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.  Ler e escrever requerem dedicação, exercício e tomada de consciência. Novo Hamburgo, 03 de agosto de 2017. Disponível online em:   http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/08/ler-e-escrever-requerem-dedicacao.html



sábado, 29 de julho de 2017

Senso numérico - importância para a fluência matemática

Ana Lúcia Hennemann¹

“Quando criança, eu me sentia incompetente em relação à matemática, achava tudo sem sentido, sem encanto, sem porquê. A matemática se resumia a um amontoado de regras para acertar exercícios e conseguir passar de ano. Lembro-me de um problema em um livro de matemática, sem cor nem imagem: Um palhaço tem 5 roupas e 4 chapéus. De quantas formas diferentes ele pode se vestir? Como não sabia o que era para fazer, fiquei parada, olhando aquele texto. Foi então que a professora disse: “Multiplique a quantidade de roupas pela quantidade de chapéus”. Foi o que fiz: 5x4=20. E, ganhei um certo. Acertei, mas não compreendi! Na verdade, senti-me o palhaço daquele problema...”
- Luiza Faraco Ramos (2009, p.8-9)

     Se alguém menciona a expressão “mundo letrado”, o que exatamente vem à sua mente?
    Se num primeiro momento você pensou em letras, saiba que seu pensamento está correto, porém o mundo letrado não consiste apenas em letras, mas também em números, sendo que estes estão presentes no relógio, no controle remoto da televisão, no teclado do notebook, do celular, do computador, na camisa dos jogadores, nos preços das mercadorias. Pode-se afirmar que em toda a nossa volta as noções de números e todos seus demais contextos estão presentes, sendo que a interação do sujeito com o meio e o desenvolvimento das funções cerebrais cognitivas proporcionam a criança a aquisição destes saberes relacionados com as habilidades matemáticas.
   A relação destes números com suas respetivas quantidades inicia de modo lúdico, seja através de brinquedos, brincadeiras, narração de histórias (os três ursos, por exemplo), jogos e atividades cotidianas diversificadas.  Situações onde a criança é solicitada a mostrar em seus dedos quantos anos tem, contar objetos que possui, brincadeiras envolvendo relações termo a termo (correspondência entre quantidades) fazem com que as habilidades matemáticas se consolidem e vão permitindo deste modo a noção de senso numérico.
  O senso numérico envolve noções básicas do conhecimento numérico e suas respectivas quantidades, sendo que Corso e Dorneles (2010, p. 299) explicam que não há na literatura um conceito único desta habilidade, porém “de um modo geral, este se refere à facilidade e à flexibilidade das crianças com números e à sua compreensão do significado dos números e ideias relacionadas a eles”.
   As autoras também alertam que indivíduos que possui o senso numérico pouco desenvolvido podem ter baixo desempenho em atividades de contagem, realização de operações, estimativas e cálculo mental, ou seja, nos saberes básicos que auxiliam na fluência matemática. Por exemplo, no caso da citação inicial de Luiza Faraco Ramos, uma  criança com o senso numérico bem desenvolvido apresenta condições de resolver cálculos através de diferentes representações, ou seja, ela poderia ter estimativa da resposta, talvez inicialmente nem pensasse na possibilidade de multiplicação, mas poderia desenhar as tais roupas e chapéus e desse modo fazer as combinações.
    Nossas aprendizagens relacionadas às quantidades e números envolvem vários circuitos cerebrais que estão interligados repassando informações uns para os outros, através da coordenação do lobo parietal. Cosenza e Guerra (2011) nos dizem que o modelo mais adotado na relação cérebro x matemática é o Modelo Triplo Código, onde segundo este construto três circuitos diferentes são ativados:
1º no córtex do lobo parietal dos dois hemisférios cerebrais, ao redor de um sulco horizontal denominado sulco intraparietal = ocorre a percepção da magnitude (quantidade, fileira numérica);
2º em uma porção do córtex na junção occipito-temporal, também em ambos os hemisférios cerebrais = ocorre a representação visual dos símbolos numéricos (algarismos arábicos)
3º em uma região cortical do hemisfério esquerdo e parece envolver regiões temporo-parietais, que são ligadas ao processamento da linguagem = ocorre a representação verbal dos números (quatro, sete, vinte e um, etc.)

   Toda esta base envolvendo matemática deve estar organizada por volta dos 5 anos de idade (COSENZA; GUERRA, 2011), ressaltando aqui a importância do trabalho desenvolvido pela Educação Infantil, principalmente na identificação precoce de crianças que apresentam o senso numérico pouco desenvolvido. A alfabetização matemática, na qual se desenvolve o senso numérico, requer bases anteriores ao trabalho desenvolvido no Ensino Fundamental.
    Nesse sentido, o lúdico se mostra como maior recurso para o desenvolvimento destas habilidades básicas, sendo que Kamii e Clark (1992) enfatizam a importância da “aritmetização lógica da realidade”, ou seja, a criança interagir com as situações propostas como forma de construir o pensamento numérico, pensamento que não vem de livros, de explicações de outros, de programas de computador, mas sim das construções que ela vai realizando.  
Fonte: www.smarkids.com.br
- Jogo de memória: além do senso numérico, o jogo de memória é um dos jogos que trabalha muitas outras habilidades cognitivas:
- percepção visuoespacial (lembrar a forma/cor da figura virada e a sua localização),
- memória de trabalho (a criança precisa reter a informação das figuras que ela já virou)
- controle inibitório (pois ela precisa esperar até a próxima rodada)
- flexibilidade cognitiva (se alguém pegou o par de cartas antes que ela, se faz necessário criar uma nova estratégia para a próxima jogada)
- e também auxilia na relação termo a termo (correspondência).
Crianças por volta dos 4 anos de idade inicialmente podem se utilizar de jogos de memória que envolvam apenas quantidades, entretanto lá pelo final dos 5 anos já é possível trabalhar a relação quantidade x numeral correspondente até o numeral 10.


- Jogo de quantidades:
Fonte: http://professorajuce.blogspot.com.br/2015/02/matematica-na-educacao-infantil.html?spref=pi 
A criança joga o dado e precisa preencher seu tabuleiro (caixa de ovos) com a quantidade mostrada.


Noção de maior que  x menor que:










- Relações numeral x quantidade

 








Livros de histórias que trabalham o senso numérico:

- Os dez amigos. Autor: Ziraldo. Editora: Melhoramentos.
- Os dez sacizinhos. Autor: Tatiana Belinky. Editora: Paulinas.
- Chá das dez. Autor: Celso Sisto. Editora: Aletria.
- Cachinhos dourados. Autor: Ana Maria Machado. Editora: FTD.

Referências Bibliográficas:
BASTOS, José Alexandre. O cérebro e a matemática. São Paulo: Edição do Autor, 2008.
CORSO, Luciana. DORNELES, Beatriz. Senso numérico e dificuldades de aprendizagem na matemática. Rev. Psicopedagogia 27(83): 298-309. Porto Alegre: 2010.
COSENZA, Ramon. GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação – Como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.
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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.   Senso numérico - importância para a fluência matemática. Novo Hamburgo, 29 de julho/ 2017. Disponível online em:   http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/07/senso-numerico-importancia-para.html

sábado, 15 de julho de 2017

Processamento Léxico e fonológico – modelo cognitivo de “dupla rota”

Ana Lúcia Hennemann¹
     
    Estudos das neurociências trouxeram a compreensão de muitas interfaces entre cérebro e aprendizagem, sendo que na atualidade já é possível verificar quais processos cognitivos são acionados quando um indivíduo executa determinadas tarefas. Deste modo, pesquisas relacionadas a área da leitura tem proporcionado a compreensão de vários processos específicos que precisam trabalhar em harmonia de forma a tornar o indivíduo um leitor mais eficiente, ou então, entender e poder intervir quando alguém apresenta dificuldades relacionadas à leitura.
     Corso e Salles (2009) em estudo da “Relação entre leitura de palavras isoladas e compreensão de leitura textual em crianças” explicam que para a leitura de palavras impressas acionamos o nosso léxico mental, este engloba dois processos diferentes: rota fonológica e rota léxica, por isso os mesmos são conhecidos como modelo cognitivo de “dupla rota”, porém, um leitor competente precisa dominar os dois processos para que o reconhecimento da palavra possa ser mais eficaz.

     A rota fonológica é responsável pela decodificação do grafema/fonema, por exemplo para leitura da palavra: “chivanerfluzba”, que na verdade se trata de uma pseudopalavra, o leitor, embora desconheça a palavra e seu significado, conseguirá ler fazendo uso dos conhecimentos fonológicos.
Por isso, a leitura de palavras tanto conhecidas quanto desconhecidas, podem ser lidas pela rota fonológica, porém, na leitura de palavras irregulares, o leitor apresenta bastante dificuldade pois a correspondência letra-som não obedece uma regra geral, ou seja, na leitura da palavra táxi um leitor iniciante pode ler “tachi”, do mesmo modo ler “echercício” ao invés de “exercício”. Crianças que recém estão se alfabetizando, utilizam e muito a rota fonológica, cujo esforço de decodificação faz com que a leitura seja mais lenta e segmentada e muitas vezes quando perguntamos sobre o significado da leitura, ela poderá responder que não sabe.
     Diferentemente, na rota lexical as palavras são identificadas conforme o reconhecimento de sua ortografia e também associados com outras palavras que tenham ortografias semelhantes, bem como o acesso imediato ao seu significado semântico. Por exemplo: vamos dizer que alguém lhe dita uma palavra e você fica na dúvida se a palavra é com j ou g, e imediatamente num ato automático, escreve a palavra como modo a sanar tal dúvida…isso acontece porque já temos armazenado um “dicionário léxico” que nos permite lembrar da forma ortográfica da palavra no momento em que a visualizamos. 
     O reconhecimento de palavras pela leitura é atingido precocemente por escolares sem dificuldades. (MOUSINHO; NAVAS, 2016). Entretanto, devemos lembrar que crianças, principalmente no processo de alfabetização, recém estão estruturando este dicionário, por isso é importante o maior contato possível com objetos de leitura (livros, revistas, jogos, etc).
     Do mesmo modo, hábitos de leitura diários, podem propiciar maior fluência e velocidade de processamento (capacidade de buscar as informações na memória de longo prazo), o que auxilia a criança a ter mais espaço na sua memória operacional de modo a conseguir prestar atenção a outros aspectos que envolvem a leitura, tais como: interpretação, comparação, identificação das ideias centrais.
     Vamos fazer uma experiência? Leia o parágrafo abaixo, o qual poderá lhe dar o entendimento de como se sente um indivíduo que necessita fazer constantemente somente uso da rota fonológica para a leitura de textos...
     O    u   s   o     d   a     r   o   t   a     f   o   n   o   l   ó   g   i   c   a    p   e   r   m   i   t   e     c   h    e   g   a   r     a   o     s   i   g   n   i   f  i   c   a   d   o    d   a   s    p   a   l   a   v   r   a   s     a   t    r    a   v   é   s       d   a      t    r   a   n   s   f   o   r   m  a   ç   ã   o      d   e    c   a   d   a    g   r   a   f   e   m   a     e   m     s   e   u     c   o   r   r   e   s   p    o    n   d    e    n   t     e       s   o   m   e    f   a   z   e   r     u   s   o     d   o     m    e   s   m   o     p   a   r   a    t   e   n   t   a   r     c   o   m   p   r   e   e   n   d   e   r      o   s   i   g   n   i   f   i   c   a   d   o    d   a   s    p   a   l   a   v   r   a   s.
     Talvez, este simples parágrafo tenha sido fácil para você, justamente porque já tem proficiência tanto no uso da rota léxica quanto da fonológica, porém, pode-se perceber que perdemos velocidade de processamento e fluência da leitura, imagine alguém que tenha que ler um livro fazendo uso apenas da rota fonológica! Então, pensando em todas estas situações, vamos responder as perguntas propostas no início deste artigo: - O que faz com que tenhamos maior fluência e velocidade de processamento na leitura? Será que é somente treino?
     Maior fluência e velocidade de processamento na leitura ocorre sim, através do aumento da nossa bagagem lexical. Treinos de leitura ajudam e muito, entretanto, se faz necessário entender que a criança pode apresentar déficit em algum dos componentes que fazem parte destes processos de dupla rota, fazendo com que não consigam desenvolver a fluência e a velocidade de processamento. Vejamos por exemplo: uma criança que esteja no 4º ano do ensino fundamental, onde a maioria das disciplinas exigem leituras constantes e a estratégia de leitura deste indivíduo ocorre somente pela rota fonológica. Essa situação causa um atraso na leitura e na compreensão leitora, pois acarreta no comprometimento da memória de trabalho e na busca de imagens mentais que ajudam a compreender a leitura.
    Nesse sentido devemos entender que apesar da criança fazer uso da rota fonológica, ela pode justamente ter processos desta rota que se mostram deficitários, tais como consciência fonológica, discriminação auditiva, memória fonológica, então de nada adiantará apenas treinar a leitura, pois existem outros fatores que necessitam ser desenvolvidos. Pais e professores devem levar em consideração que crianças no terceiro ano do ensino fundamental já deveriam ter todas estas habilidades bem desenvolvidas, caso contrário, se faz necessário uma avaliação do desempenho desta criança, de modo a averiguar em que aspectos ela precisa ser estimulada.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CORSO, Helena. SALLES, Jerusa. Relação entre leitura de palavras isoladas e compreensão de leitura textual em crianças. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 44, n. 3, p. 28-35, jul./set. 2009
MOUSINHO, Renata. NAVAS, Ana Luíza. Mudanças apontadas no DSM-5 em relação aos transtornos específicos de aprendizagem em leitura e escrita. Revista debates em psiquiatria - Mai/Jun 2016.
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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.  Processamento Léxico e fonológico – modelo cognitivo de “dupla rota”. Novo Hamburgo, 15 de julho/ 2017. Disponível online em:   http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/07/processamento-lexico-e-fonologico.html